Projeto da UFF usa tecnologia BIM para diagnosticar e solucionar problemas habitacionais em Niterói
A tecnologia é uma aliada fundamental na busca por soluções para os desafios urbanos e sociais. No setor habitacional, a Modelagem da Informação da Construção (BIM) surge como uma ferramenta estratégica, para permitir a criação de modelos digitais detalhados de edificações. No projeto de extensão “BIM e Tecnologia Social para gestão socioespacial nas cidades“, do Departamento de Engenharia Civil da Universidade Federal Fluminense (UFF), a aplicação da metodologia visa identificar e diagnosticar problemas nas edificações, planejar reformas com maior precisão e otimizar recursos, a fim de garantir maior qualidade de vida das comunidades atendidas.
Executada em parceria com a Secretaria Municipal de Habitação de Niterói, a iniciativa alia a necessidade de promover melhorias habitacionais em comunidades de Niterói à experiência acadêmica do grupo de pesquisa e extensão da UFF. O projeto é renovado anualmente a partir das demandas da prefeitura e acompanha as comunidades selecionadas para os projetos de melhoria habitacional, hoje Vila Ipiranga e Cocada.

Visita à Comunidade Vila Ipiranga – Professores Renata Faisca e Cristiano Saad com alunos da UFF e agentes da prefeitura e comunidade | Reprodução: Arquivo pessoal dos coordenadores
A Modelagem da Informação da Construção, BIM, do inglês Building Information Modeling, é uma metodologia que permite a criação de modelos digitais detalhados de edificações, para incorporar informações técnicas e de gestão. Neste projeto de extensão, a equipe escolheu o BIM devido à capacidade de fornecer diagnósticos precisos sobre as condições habitacionais, o que facilita o planejamento de melhorias e integra diferentes agentes na gestão urbana.
A experiência na Vila Ipiranga
Realizado de forma pioneira na Vila Ipiranga, a aplicação do BIM colaborou com o desenvolvimento de soluções concretas, a fim de melhorar as condições de moradias. Para superar os desafios dos diferentes casos encontrados, a equipe do projeto envolveu diretamente os moradores, por meio de reuniões e entrevistas, em busca de ouvir as principais demandas e garantir que as soluções atendessem às reais necessidades dos moradores.
“O maior problema identificado foi a precariedade das instalações hidrossanitárias, que compromete a qualidade de vida dos usuários. A equipe realizou visitas técnicas para levantar as condições das moradias, utilizou ferramentas digitais para modelagem e organizou as informações em um banco de dados”, contam os coordenadores do projeto e professores de Engenharia Civil da UFF, Renata Faisca e Cristiano Travassos.
O diagnóstico detalhado identificou as condições habitacionais de 23 residências, neste primeiro momento, e permitiu a criação de modelos digitais que reúnem informações técnicas essenciais para um planejamento mais preciso das obras. Essa abordagem possibilitou a otimização dos custos e a implementação de soluções voltadas para saneamento e segurança, o que garante que as reformas atendam às necessidades mais urgentes dos moradores. Além disso, o envolvimento das famílias no desenvolvimento dos projetos permitiu priorizar as demandas mais críticas apontadas por elas.
“A interação ocorreu por meio de reuniões e entrevistas informais, para garantir que os moradores expressassem suas principais necessidades. As demandas mais recorrentes incluíram melhorias na infraestrutura básica, como instalações hidrossanitárias e elétricas, além da necessidade de maior acessibilidade nas moradias“, relatam os professores.
Os benefícios da efetivação da nova técnica e o impacto na formação universitária
A implementação da tecnologia BIM permite aumentar a eficiência no orçamento e na logística da obra, com um levantamento mais preciso dos materiais necessários, reduzindo desperdícios e retrabalho. “Como resultado, os custos das reformas foram otimizados em pelo menos 10%, os trâmites burocráticos aceleraram e mais famílias puderam ser atendidas dentro do orçamento disponível”, expõem os coordenadores.
Os docentes apontam que a metodologia se diferencia, principalmente, pela digitalização e fácil disponibilização dos projetos de engenharia. “A modelagem BIM transforma as pranchas de projetos em dados digitais, portanto aquelas grandes folhas com desenhos que apenas os técnicos da construção entendiam, dão lugar a modelos e maquetes digitais mais agradáveis. Ou seja, as informações da construção deixam de estar registradas em papéis impressos e entram em modelos 3D, que podem ser visualizados, entendidos e consultados com alguns cliques no computador ou no celular”.
Além da melhoria direta nas condições de moradia, o projeto também capacita estudantes do curso de engenharia civil, que participam das ações e têm contato direto com a aplicação do BIM em um contexto real, de forma a desenvolverem habilidades técnicas e discussões socioambientais. “A experiência permitiu a compreensão dos desafios da construção em áreas vulneráveis e aprimorou a capacidade de trabalhar com diferentes atores, como gestores públicos e comunidades”, analisam os coordenadores.

Participação de aluna de graduação do grupo em eventos nacional e internacional | Reprodução: Arquivo pessoal dos coordenadores
Os desafios da implementação da tecnologia BIM e as aplicações fora do papel
Entre os desafios enfrentados, destaca-se a necessidade de capacitar os estudantes na metodologia BIM e a limitação de recursos tecnológicos para viabilizar um mapeamento mais abrangente. Nesse sentido, a equipe realizou um diagnóstico detalhado, que revelou alguns padrões surpreendentes nas condições habitacionais da comunidade. Os professores apontam que a falta de padronização nas construções foi um dos principais desafios. “Isso dificulta a aplicação de soluções generalizadas. Ademais, muitas moradias apresentavam problemas de ventilação e iluminação inadequadas, o que impactava diretamente o conforto e a qualidade de vida dos moradores”.
Na prática, o funcionamento base do projeto vem de uma reunião inicial com a prefeitura, que direciona as comunidades selecionadas para os projetos de melhoria habitacional. Em sequência, fazem a visita nas comunidades e nas casas, para, depois, conversarem com as famílias para entender os principais problemas de construção que afetam os usuários.
“Depois das etapas iniciais, elaboramos os projetos e enviamos para a prefeitura, que, por meio das suas equipes de assistência social, acompanha as famílias contempladas e nos fornece um feedback dos projetos. O projeto é concretizado a partir de trâmites burocráticos e processos licitatórios, que definem a construtora responsável por executar a obra”, explicam os docentes
Nova localidade e praticidade à vista
Após o sucesso na Vila Ipiranga, o projeto já está sendo ampliado para outras comunidades, como a Cocada. “Encontramos alguns desafios, como o grande número de moradias que precisam de melhorias, a necessidade de maior envolvimento dos moradores nas decisões e a rotatividade de estudantes e de colaboradores no projeto de extensão”, apontam os docentes.

Casas da Comunidade Vila Ipiranga modeladas em BIM, já com benfeitorias | Reprodução: Arquivo pessoal dos coordenadores

Prof Cristiano com aluna no evento Rio Innovation Week 2024 | Reprodução: Arquivo pessoal dos coordenadores
O projeto “BIM e Tecnologia Social para gestão socioespacial nas cidades” foi reconhecido como Tecnologia Social no catálogo de Tecnologias Sociais. Para os coordenadores, a conquista valida a relevância da iniciativa e abre portas para novas parcerias institucionais, captação de recursos e maior visibilidade para futuras expansões, além de fortalecer a interdisciplinaridade do projeto e sua inserção em políticas públicas de habitação.
Ao olhar para o futuro, a tecnologia BIM pode mudar a gestão socioespacial em larga escala no Brasil, caso seja possível um monitoramento contínuo das condições habitacionais. Segundo a Estratégia BIM Brasil, do governo federal, estima-se uma redução de 10% nos custos de produção com a utilização do BIM. “A metodologia facilita a implementação de políticas públicas mais eficientes, reduz custos operacionais e garante maior transparência na gestão de projetos de melhoria habitacional”, concluem Faisca e Saad.
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Cristiano Saad Travassos do Carmo é Doutor em Engenharia Civil na PUC-Rio. Mestre em Engenharia Civil pela PUC-Rio. Graduado em Engenharia Civil pela UFF. Atualmente, é coordenador adjunto e professor no curso de pós-graduação de Gestão e Projetos em BIM e coordenador adjunto no mestrado profissional em Engenharia Urbana e Ambiental, ambos na PUC-Rio. Profissionalmente, atuou por 4 anos como Coordenador de implementação BIM na Enel Brasil. Por dois anos, atuou como Professor Substituto pelo departamento de Engenharia Civil da UFF, lecionando as disciplinas de Sistemas Prediais, Novas Tecnologias e Resistência dos Materiais. Também atuou como instrutor de modelagem e planejamento BIM pela FIRJAN/Senai e lecionou o curso de Sinergia entre Lean e BIM no SENGE/RJ.
Renata Gonçalves Faísca possui Graduação em Engenharia Civil pela Universidade Católica de Petrópolis (UCP), Mestrado e Doutorado em Engenharia Civil pelo Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (COPPE UFRJ). Possui MBA em Gestão de Edifícios Ecoeficientes pelo LATEC – Laboratório de Tecnologia, Gestão de Negócios Meio Ambiente da Universidade Federal Fluminense (UFF). Atualmente, é Superintendente de Arquitetura, Engenharia e Patrimônio da UFF. Foi Coordenadora do Curso de Graduação em Engenharia Civil (período 2014/2018), Chefe do Departamento de Engenharia Civil (período 2020/2024) e Membro Titular do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão da UFF (período 2021/2023). É Professora Associada IV do Departamento de Engenharia Civil e do Programa de Mestrado Profissional em Defesa e Segurança Civil da Universidade Federal Fluminense. Tem experiência acadêmica e profissional na área de Engenharia Civil e Defesa e Segurança Civil.
Por Lívia Galvão
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